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TRRF Sem Mistério: Como Interpretar o Tempo Requerido de Resistência ao Fogo da IT-08

22/09/2026

Poucos temas geram tanta confusão entre engenheiros civis, arquitetos e até profissionais de segurança contra incêndio mais experientes quanto o TRRF — Tempo Requerido de Resistência ao Fogo. A razão é simples: o TRRF não é um número fixo por tipo de edificação, mas sim uma combinação de variáveis (grupo de ocupação, altura, profundidade de subsolo) cruzadas em uma tabela — e errar essa leitura significa dimensionar mal toda a estrutura e a compartimentação da edificação. Neste artigo vamos destrinchar a lógica da IT-08 (Parte 1 — Requisitos Gerais) para que você nunca mais precise "adivinhar" um TRRF.


O que é e para que serve o TRRF

Segundo o objetivo explícito da própria IT-08, o TRRF existe para "evitar o colapso estrutural por tempo suficiente para possibilitar a saída segura das pessoas e o acesso para as operações do CBPMESP". Ou seja: não é sobre impedir que a estrutura pegue fogo ou seja danificada — é sobre garantir que ela não desabe antes que todos saiam e antes que o Corpo de Bombeiros consiga atuar. Essa distinção é importante na hora de conversar com um cliente que acha que "resistência ao fogo" significa a estrutura sair ilesa de um incêndio.

O TRRF se aplica a dois grupos de elementos: os elementos estruturais (pilares, vigas, lajes com função estrutural, painéis pré-moldados estruturais) e os elementos de compartimentação (paredes corta-fogo, portas corta-fogo, selagens). Para os elementos de compartimentação, só são aceitos ensaios de laboratório ou tabelas baseadas em ensaios. Já para os elementos estruturais, a norma também aceita modelos matemáticos (analíticos) devidamente normatizados ou reconhecidos internacionalmente — mas essa metodologia só é validada após análise em Comissão Técnica, o que na prática limita seu uso a projetos de maior complexidade e orçamento.


As três variáveis que definem o TRRF na Tabela do Anexo B

A Tabela do Anexo B da IT-08 cruza três eixos: o grupo/divisão de ocupação da edificação (conforme a tabela de classificação do Regulamento de Segurança Contra Incêndio), a profundidade do subsolo (classes S1 e S2) e a altura da edificação (classes P1 a P8, de edificações térreas/baixas até torres de até 250 m). Alguns exemplos reais da tabela, para dar referência de grandeza:

  1. Grupo A (residencial): 30 min para altura até 6 m, subindo para 60 min entre 6 e 23 m, 90 min entre 23 e 30 m, chegando a 120 min entre 30 e 80 m e 180 min acima de 150 m;
  2. Grupo D (serviços profissionais, escritórios): 30 min até 6 m, 60 min entre 6 e 23 m, 90 min entre 23 e 30 m, 120 min entre 30 e 80 m;
  3. Grupo F (locais de reunião de público, como F-1/F-2/F-5/F-6/F-8/F-10/F-11): já começa em 60 min mesmo para edificações baixas, subindo até 180 min acima de 80 m;
  4. Grupo I (industrial): varia fortemente pela divisão — I-1 começa em 30 min e só chega a 120 min acima de 30 m, enquanto I-3 (risco alto) já exige 60 min mesmo para edificações térreas e sobe rapidamente com a altura;
  5. Subsolos: em praticamente todos os grupos, o TRRF para subsolo com profundidade acima de 10 m é sensivelmente maior que para subsolo raso (até 10 m) — refletindo a dificuldade adicional de evacuação e de acesso das viaturas em pisos muito profundos.

Uma regra geral que costuma pegar projetista desatento: o TRRF do subsolo e do sobressolo nunca pode ser inferior ao TRRF dos pavimentos situados acima do solo. Ou seja, mesmo que a tabela sugerisse um valor menor para o subsolo isoladamente, prevalece sempre o maior valor entre os dois.


Isenções e reduções: onde mora a economia (e o risco de erro)

A IT-08 prevê, no seu Anexo A, uma série de condições que permitem isentar a verificação do TRRF ou reduzir o valor exigido — e é aqui que projetos bem feitos economizam dinheiro real do cliente em reforço estrutural e materiais de revestimento contra fogo. As principais reduções e isenções incluem:

  1. Edificações térreas podem ter o TRRF da tabela reduzido em 30 minutos se atenderem a pelo menos uma das condições: possuírem chuveiros automáticos; terem área total ≤ 5.000 m² com pelo menos duas fachadas livres para acesso e estacionamento operacional de viaturas (conforme IT-06) somando ao menos 50% do perímetro; ou serem consideradas lateralmente abertas;
  2. Elementos estruturais secundários podem ter o TRRF reduzido em 30 minutos em relação ao valor da tabela, respeitado um piso mínimo de 15 minutos;
  3. Passarelas metálicas vazadas que atendam a determinados requisitos ficam isentas de TRRF;
  4. As isenções e reduções não se aplicam a subsolos com mais de um piso de profundidade ou área de pavimento superior a 500 m², à estrutura e paredes de escadas e elevadores de segurança, de isolamento de risco e de compartimentação (esta última mesmo em edificações térreas), nem às edificações do Grupo L (explosivos) e às Divisões M-1 (túneis), M-2 (parques de tanques) e M-3 (centrais de comunicação e energia).

Um erro comum é empilhar duas reduções diferentes ao mesmo tempo, algo que a própria norma veda explicitamente: não pode haver, em qualquer hipótese, sobreposição de isenções.


Estruturas de madeira: um capítulo à parte

Com o crescimento de construções em madeira massiva (CLT) e wood frame no Brasil, a IT-08 dedicou sua Parte 2 inteiramente a esse tipo de estrutura, com regras próprias que não seguem a Tabela do Anexo B genérica. Os valores de TRRF para madeira variam por tipo construtivo — madeira massiva totalmente revestida, madeira massiva totalmente exposta ou wood frame — e por faixa de altura, indo de 60 minutos (edificações até 6 m) a 120 minutos (entre 12 e 30 m, apenas para madeira revestida). Um ponto crítico: a redução pelo método do tempo equivalente não se aplica a edificações com estrutura de madeira, então quem tenta usar esse atalho de cálculo em um projeto de CLT está aplicando a norma errada.


Como isso se conecta com a compartimentação (IT-09)

O TRRF não vive isolado: a IT-09 (Compartimentação) usa o TRRF da edificação como referência mínima para diversos elementos, sempre com pisos mínimos próprios que às vezes superam o TRRF geral: entrepisos nunca podem ter menos que 60 minutos (EI-60); paredes de enclausuramento de escadas e elevadores de segurança nunca menos que 120 minutos (EI-120); portas corta-fogo de acesso às escadas exigem 90 minutos quando não há antecaâmara e 60 minutos quando há. Ou seja, mesmo em uma edificação cujo TRRF geral calculado seja 60 minutos, alguns elementos específicos de compartimentação vertical continuam exigindo 120 minutos por força da IT-09.


Como comprovar o TRRF perante o Corpo de Bombeiros

A IT-08 aceita três metodologias de comprovação: ensaios específicos em laboratório, atendimento a tabelas elaboradas a partir de resultados de ensaio (o caminho mais usado na prática diária) ou modelos matemáticos analíticos normatizados — sendo que, na ausência de norma nacional específica sobre dimensionamento de estruturas em situação de incêndio, adota-se o Eurocode em sua última edição. Quando o Serviço de Segurança Contra Incêndio exigir comprovação da metodologia, deve ser apresentado o memorial de segurança contra incêndio das estruturas junto com o documento de responsabilidade técnica.


Exemplo prático de leitura da tabela

Imagine um edifício de escritórios (Grupo D) com 45 metros de altura e um subsolo de 4 metros de profundidade (classe S1, até 10 m). Consultando a Tabela do Anexo B: a faixa de altura entre 30 e 80 m para o Grupo D corresponde à classe P5, com TRRF de 120 minutos. Como o subsolo é classe S1, o TRRF tabelado para ele seria de 60 minutos — mas, pela regra geral, o TRRF do subsolo nunca pode ser inferior ao dos pavimentos acima do solo, então o subsolo também precisa atender aos 120 minutos exigidos para a torre. Esse tipo de "arrasta para cima" é um dos pontos mais esquecidos em projetos que tratam o subsolo como um cálculo isolado do restante da edificação.

Agora compare com o mesmo edifício, mas com altura de 20 m (classe P3, entre 12 e 23 m): o TRRF cai para 60 minutos. A diferença de poucos metros de altura entre as faixas P2, P3, P4 e P5 pode alterar o TRRF exigido em dezenas de minutos, o que impacta diretamente a espessura de revesímento contra fogo necessária e, consequentemente, o orçamento estrutural do projeto.


Perguntas frequentes sobre TRRF

O TRRF é o mesmo para todos os pilares e vigas da edificação?

Via de regra sim, para os elementos estruturais principais, mas os elementos secundários podem ter redução de 30 minutos em relação ao valor tabelado (respeitado o mínimo de 15 minutos), e elementos de compartimentação específicos (como paredes de escada) podem exigir valores maiores que o TRRF geral, por força da IT-09.

Uma edificação com chuveiros automáticos sempre tem TRRF reduzido?

Não automaticamente para qualquer altura — a redução de 30 minutos por chuveiros automáticos, prevista no Anexo A, aplica-se especificamente a edificações térreas, e mesmo assim combinada com as demais condições e restrições do Anexo A. Para edificações de múltiplos pavimentos, a presença de chuveiros automáticos pode influenciar outras exigências (como área de compartimentação), mas não reduz automaticamente o TRRF da Tabela do Anexo B.

Quem pode assinar a comprovação do TRRF por modelo matemático?

A metodologia de modelos matemáticos (analíticos) exige análise prévia em Comissão Técnica antes de ser aceita — não é uma opção de uso livre do responsável técnico, diferente da metodologia por tabelas baseadas em ensaio, que pode ser aplicada diretamente pelo profissional responsável sem essa etapa adicional.


Checklist rápido antes de fechar o projeto estrutural

  1. Confirmar o grupo e divisão de ocupação exatos da edificação (não o "parecido");
  2. Medir corretamente a altura da edificação conforme a definição técnica da IT-03, não a altura "de fachada";
  3. Verificar a profundidade real do subsolo em metros, não em número de pisos;
  4. Checar se alguma condição de isenção ou redução se aplica — e documentar a justificativa;
  5. Confirmar que a compartimentação vertical (IT-09) não exige um TRRF pontual maior que o da tabela geral;
  6. Se houver estrutura de madeira, migrar imediatamente para a Parte 2 da IT-08, ignorando a tabela genérica.


Como o AVCB Pro ajuda nesse cálculo

O módulo de Projeto dentro de uma Solicitação, trás calculadoras de engenharia, onde existe a verificação de TRRF com base nas regras da IT-08 aplicadas diretamente aos dados já cadastrados da edificação — grupo de ocupação, altura e profundidade de subsolo —, evitando a consulta manual repetida à tabela e reduzindo o risco de cruzar a linha ou coluna errada, que é o erro mais comum nesse tipo de consulta. Como toda sugestão do sistema fica registrada com entrada, saída e regra aplicada, o responsável técnico mantém a rastreabilidade necessária para justificar o TRRF adotado caso seja questionado durante a análise do Projeto Técnico ou durante a vistoria.

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