Controle de Fumaça: Quando é Exigido e Como Interpretar as 9 Partes da IT-15
29/09/2026
Se existe uma Instrução Técnica que assusta até profissional experiente pela extensão e complexidade, essa é a IT-15 — Controle de Fumaça, dividida em nada menos que nove partes. A boa notícia é que essa divisão não é arbitrária: cada parte cobre um recorte específico do problema, e entender a lógica de organização da norma já resolve boa parte da dificuldade de navegação. Este artigo mapeia o que cada parte cobre e explica os conceitos fundamentais que atravessam todas elas.
Por que controlar fumaça, afinal
A própria IT-15 (Parte 1) declara três objetivos claros para o sistema de controle de fumaça: manter um ambiente seguro durante o tempo necessário para o abandono do local sinistrado, evitando intoxicação e falta de visibilidade; controlar e reduzir a propagação de gases quentes e fumaça entre a área incendiada e áreas adjacentes, diminuindo a temperatura interna e limitando a propagação do incêndio; e criar condições dentro e fora da área incendiada que auxiliem nas operações de busca, resgate e combate do CBPMESP. Em outras palavras: o controle de fumaça não é sobre apagar o incêndio — é sobre ganhar tempo e visibilidade para quem precisa sair e para quem precisa entrar.
Mapa das nove partes da IT-15
- Parte 1 — Regras gerais: define objetivo, aplicação (átrios, malls, subsolos, espaços amplos e rotas horizontais), os tipos de sistema possíveis e as condições gerais de funcionamento;
- Parte 2 — Conceitos, definições e componentes do sistema: vocabulário técnico e os elementos físicos que compõem um sistema de controle de fumaça (dampers, exaustores, dutos, barreiras de fumaça, etc.);
- Parte 3 — Em edificações comerciais, industriais e depósitos: critérios específicos para esses usos, tipicamente com grandes áreas contínuas e cargas de incêndio elevadas;
- Parte 4 — Controle nas demais ocupações: cobre os grupos de ocupação que não se enquadram na Parte 3, fechando o espectro de usos possíveis;
- Parte 5 — Controle de fumaça mecânico: parâmetros de dimensionamento específicos para sistemas que dependem de exaustores e ventiladores, em oposição ao controle natural;
- Parte 6 — Em rotas de fuga horizontais e subsolos: foco específico na proteção dos caminhos de saída, onde a presença de fumaça é mais crítica para a evacuação segura;
- Parte 7 — Átrios: trata do desafio específico de espaços verticais abertos que interligam múltiplos pavimentos, onde a fumaça tende a se propagar rapidamente por efeito chaminé;
- Parte 8 — Aspectos de segurança: requisitos complementares de segurança e confiabilidade do sistema instalado;
- Parte 9 — Situações: subsolos e edificações sem janelas: trata dos cenários mais desafiadores de ventilação natural, onde a ausêncio de aberturas para o exterior exige soluções de controle de fumaça necessariamente mais robustas.
Essa organização em partes é útil na prática: em vez de tentar ler a IT-15 inteira de uma vez, o profissional pode identificar primeiro em qual "eixo" o projeto se encaixa — tipo de ocupação (Partes 3 e 4), tipo de sistema (Parte 5), local específico da edificação (Partes 6, 7 e 9) — e então estudar apenas as partes relevantes com profundidade, sempre com a Parte 1 como base conceitual comum.
Os três tipos de sistema (Tabela 1 da Parte 1)
A norma define três combinações possíveis entre extração de fumaça e introdução de ar limpo: natural/natural, mecânica/natural e mecânica/mecânica. A escolha do sistema fica a critério do projetista, desde que atenda às condições descritas na norma — mas há uma restrição absoluta: não podem ser instalados, em um mesmo ambiente, sistemas de extração natural e mecânica simultaneamente. Misturar as duas lógicas no mesmo espaço compromete o funcionamento de ambas.
A lógica de pressão negativa
O princípio de funcionamento central é que a área sinistrada deve ficar sob pressão negativa em relação às áreas adjacentes não sinistradas — ou seja, o sistema precisa extrair mais ar do que introduz na área do incêndio, criando um fluxo que puxa a fumaça para fora em vez de deixá-la migrar para ambientes vizinhos. Na prática, isso significa que a extração de fumaça deve ser acionada apenas na área sinistrada, enquanto a introdução de ar é acionada tanto na área sinistrada quanto nas áreas de acantonamento adjacentes quando não houver compartimentação entre elas.
Acantonamento e zonas mortas: os dois problemas técnicos centrais
Para obter um controle de fumaça eficiente, a norma exige dividir os volumes de fumaça a extrair por meio de compartimentação de área ou de áreas de acantonamento (barreiras físicas parciais que limitam a propagação horizontal da camada de fumaça), além de garantir extração adequada que evite a formação de zonas mortas — pontos onde a fumaça se acumula sem ser extraída mesmo com o sistema em funcionamento. Um projeto de controle de fumaça que não considera a geometria real do ambiente e posiciona exaustores de forma genérica tende a criar exatamente esse tipo de zona morta, mesmo com vazão total aparentemente suficiente no papel.
Cuidado com o "backdraft"
A norma chama atenção para um risco específico do projeto e execução mal feitos: acionar o sistema no momento errado ou dimensionar mal a altura da camada de fumaça pode criar condições perigosas, incluindo a explosão ambiental conhecida como backdraft, ou favorecer a propagação do incêndio pelo aumento de temperatura no local. Esse é um dos motivos pelos quais o projeto de controle de fumaça exige, mais do que muitas outras medidas de segurança, integração cuidadosa com o sistema de detecção e alarme de incêndio que dispara o acionamento.
Integração com outras ITs
O controle de fumaça não existe isolado: escadas e rotas de fuga verticais precisam atender simultaneamente às IT-11 (saídas de emergência), IT-12 e IT-13 (pressurização de escada de segurança), e diferentes sistemas de controle de fumaça em rotas horizontais e verticais precisam ser compatíveis entre si — um projeto que trata cada sistema isoladamente, sem verificar a interação entre eles, corre o risco de ter dois sistemas que, na prática, se anulam ou competem entre si. Para túneis rodoviários e estações metroviárias subterrâneas, a IT-15 remete diretamente às ITs 35 e 45, respectivamente, que trazem critérios próprios e mais específicos para esses cenários.
Materiais e componentes: o que muda entre sistema natural e mecânico
No sistema natural, o controle depende de aberturas dimensionadas corretamente (janelas, lâminas, exaustores eólicos) posicionadas para aproveitar o efeito de empuxo térmico da fumaça quente. No sistema mecânico, entram em cena ventiladores e exaustores com vazão calculada, dutos resistentes ao calor (capazes de operar em temperaturas elevadas sem perder integridade estrutural durante o tempo de operação exigido) e dampers corta-fogo motorizados que abrem e fecham conforme a lógica de acionamento. A Parte 2 da IT-15 detalha exatamente esses componentes e suas definições técnicas, e um erro comum de projetistas menos experientes é especificar equipamentos de ventilação convencional (não certificados para altas temperaturas) em um sistema que precisa continuar operando durante um incêndio real, não apenas em condições normais de conforto ambiental.
Quando o controle de fumaça passa a ser obrigatório
A definição de quando o controle de fumaça é exigido depende do cruzamento entre grupo de ocupação, altura da edificação e área, conforme as tabelas de exigências do Regulamento de Segurança Contra Incêndio (as conhecidas "Tabelas 6" por grupo de ocupação do Decreto 69.118/24). Em vários grupos, o controle de fumaça só passa a ser exigido a partir de determinada altura (por exemplo, edificações de saúde acima de 90 m nas condições previstas), ou pode inclusive substituir outras medidas de compartimentação em conjunto com detecção de incêndio e chuveiros automáticos, dependendo do grupo. É uma norma onde a leitura isolada de uma única tabela sem cruzar com o texto das nove partes da IT-15 facilmente leva a conclusões equivocadas sobre obrigatoriedade.
Perguntas frequentes sobre controle de fumaça
Controle de fumaça é a mesma coisa que pressurização de escada?
Não, são sistemas distintos, embora precisem ser compatíveis entre si. A pressurização de escada é tratada pela IT-13 e tem como objetivo manter a escada de segurança livre de fumaça, enquanto o controle de fumaça da IT-15 atua sobre átrios, subsolos, espaços amplos e rotas horizontais. A própria IT-15 exige que os dois sistemas, quando presentes na mesma edificação, sejam compatíveis em sua lógica de funcionamento.
Todo edifício alto precisa de controle de fumaça?
Não necessariamente — a exigência depende do cruzamento entre grupo de ocupação, altura e área conforme as tabelas do Regulamento de Segurança Contra Incêndio, e em alguns casos o controle de fumaça pode ser substituído por uma combinação de outras medidas (chuveiros automáticos e detecção de incêndio), dependendo do grupo específico e da faixa de altura.
Quem pode projetar um sistema de controle de fumaça mecânico?
É um projeto que normalmente exige conhecimento específico de mecânica dos fluidos e dimensionamento de sistemas de ventilação forçada, geralmente desenvolvido por engenheiro mecânico ou engenheiro de segurança contra incêndio com formação específica nessa área, dada a complexidade dos cálculos de vazão e pressão envolvidos, tratados em profundidade na Parte 5 da IT-15.
Como o AVCB Pro ajuda a navegar a IT-15
Com a complexidade de nove partes distintas, ter a biblioteca completa das Instruções Técnicas do CBPMESP pesquisável dentro do próprio sistema — incluindo as nove partes da IT-15 organizadas e prontas para consulta e download — evita a perda de tempo procurando qual PDF específico trata de qual situação. Além disso, o diagnóstico automático de exigências por edificação do AVCB Pro já aponta se o controle de fumaça é ou não obrigatório para o caso específico cadastrado, cruzando ocupação, altura e área automaticamente — um bom ponto de partida antes de mergulhar na leitura detalhada da parte específica da norma que se aplica ao seu projeto.